Assim seja—até que o verbo esplendido da democracia surja como luzeiro da redempção da humanidade.

Os phariseus de todas as épocas teem sempre uma accusação adrede, para extinguirem a luz da alma nos homens do futuro.

É antiquissima e vetusta usança injuriar os espiritos elevados e prescientes de todos os tempos, infamando-os com os epithetos, que o seculo detesta e abomina, para os crucificar, sem dôr nem piedade, e entregal-os, depois, á irrisão da gentalha, e á execração immorredoura dos vindouros.

É esta a lenda de Christna e de Bouddha no Oriente, de Socrates em Athenas, dos Gracchos e de Spartaco em Roma, de Christo e dos apostolos em Jerusalem, de João Huss e de Jeronymo de Praga na Allemanha, de Savonarola em Florença, e de todos os reformadores da humanidade—desde Abel, se aceitamos o mytho biblico, até ao ultimo pastor das Cevennas, e até ao derradeiro Karl Marx das sociedades modernas.

Convem estudar a época em que nasceu o carrasco.

Depois o ouviremos.

Os tres estados eram a base da nossa organisação politica e social: clero, nobreza e povo. Todavia, elementos preponderantes eram os dous primeiros. Vivia e medrava o povo como machina. Trabalhava, suava e mourejava para alimentar e enriquecer o sacerdocio e a nobreza. Nas horas de perigo, no momento das grandes luctas apparecia como comparsa, enfileirava-se nos córos das supremas tragedias, e morria na obscuridade de legião, no completo desprezo da sua insignificancia. Acclamava o mestre de Aviz, cahia desconhecido e ignorado nos areaes d'Africa, passava desapercebido, para as chronicas, nos galeões da India, e nos recontros e batalhas figurava pela força numerica, como hoje se designam nos mappas de brigada as forças vivas de qualquer regimento ou batalhão. Afóra estes lances era a plebe, era a villanagem, era a mó do povo, era a peonagem, era o numero.

Na vida campestre emparelhava com o boi, dormia ao lado do rebanho, inventariava-se entre as alfaias da officina rural—era a força empregada no impulso da enxada, era o guia do arado, era, finalmente, a machina, que desbravava a charneca, que enxugava o paúl, que roçava o matagal basto e espesso, que Semeava o terreno lavrado pelo seu esforço, e que, mais tarde, colhia e arrecadava o fructo.

Na sociedade urbana era o operario—mal ensinado, parcamente retribuido, entregue a si e aos seus proprios e escassos recursos, sem lição, sem exemplos, sem estimulos, sem auxilio, e sem mercado vasto e animado para os productos da sua industria.

O commercio de grosso tracto, monopolisado entre algumas dezenas de capitalistas e armadores, vivia fóra da acção productiva do paiz, como n'um eden de bemaventurança, onde a entrada era vedada a profanos.