Expulsáramos os sarracenos tão tarde, organisáramo-nos, como nação, em época tão proxima, que sem termos soffrido os vexames do feudalismo, não creámos, tambem, a classe, que mais arcou com elle, e que o assoberbou e venceu.
Temos sido sempre o echo remoto e longiquo das luctas sociaes, politicas e economicas da Europa.
Ao passo que a communa, originada no municipio romano, sahia das trevas da meia idade, depois das cruzadas e das luctas feudaes dos grandes vassallos, caminhando tenazmente por entre os recifes dos direitos senhoriaes e do poder real até chegar, em França, á revolução de 1789, e affirmava, sem mais contestação possivel, os legitimos direitos do terceiro estado—entre nós a burguezia, a classe média foi sempre uma creação ephempra, uma entidade sem solidez nem significação valiosa, e tanto assim que, depois das luctas constitucionaes, quando triumpharam alguns dos principios liberaes, pouco a pouco, a parte mais opulenta, mais rica, mais dinheirosa d'essa creação ficticia ennobreceu-se, afastou-se com desdem e desprezo da sua propria classe—se classe era—buscando no luzimento e esplendor das armarias e librés um marco divisorio, que a separasse para todo o sempre dos seus irmãos no trabalho. E os grupos restantes, menos abastados, menos felizes, e menos poderosos, pelos haveres, mergulharam, por instincto, educação e costumes, no seio da plebe onde existem e jazem, quaesquer que sejam as vaidades com que pretendam esconder esta communhão de interesses, habitos e sentimentos.
É doloroso dizel-o, mas embora: aceitemos os acontecimentos como são. A revolução de 1832 e 1833 em Portugal, em presença da sciencia, não só não foi uma revolução social, mas nem sequer foi uma profunda revolução politica em todo o rigor do vocabulo.
Foi uma guerra de successão a um throno contestado por dous irmãos, que se reputavam ambos legitimos, cercados de partidarios com interesses e direitos offendidos, e em que um dos pretendentes—o mais habil, senão o mais feliz—soube crear sympathias heroicas e indestructiveis dedicações, appellando para a corrente das idéas do seu seculo, e alcançou captivar as almas generosas, outorgando uma carta constitucional, simulacro de liberdades, que não prenderam nem limitaram—como o não tem feito—o exercicio constante e absoluto do poder e governo pessoal.
Podem-me contestar uma tão resumida e rapida exposição. Os factos, porém, não deixarão desmentir estas verdades.
Nas luctas de 1833 achava-se a nobreza antiga, a nobreza de sangue dividida nos dous campos, pelejando em fileiras diversas, e por vezes inimiga no seio dos proprios solares. Todavia não era a diversidade de crenças, nem a sinceridade das convicções, que a traziam, assim, desavinda e odienta. Era o egoismo dos interesses perdidos, era o ciume do valimento ou o odio pelos desprezos da corôa, era o orgulho de preeminencias e prerogativas nas familias titulares, eram as desconsiderações dos seus pares, sentidas, e cuidadosamente legadas, que iam passando, no mysterio dos tombos e cartorios, com a successão dos vinculos por diversos reinados, eram vinganças sumidas e occultas por entre os pergaminhos de raça, e todas estas ruins paixões, todas estas heranças em que o amor proprio e a soberba dos avós, que se transmittia aos netos, achou, na lucta dos dous principes, respiradouro por onde se expandisse e rebentasse a explosão.
Foi assim.
Como casta, as crenças eram as mesmas. Se a palavra augusta de crença póde ter cabida onde se falla de orgulho inexoravel, de implacaveis interesses, e onde germina o desprezo inveterado e profundo por tudo e por todos, que não descendem d'avós, já nobilitados, nos seculos undecimo e duodecimo da nossa modernissima monarchia.
Os reis podem fazer nobres, mas não teem poder para crear fidalgos.» Estas palavras, nascidas da orgulhosa colera d'um adversario puritano da fórma politica actual, explicam á nobreza moderna—se ella sabe meditar—como são sinceros e affectuosos os afagos e blandicias com que a antiga aristocracia a trata e recebe. Fica escripto por uma vez: o ultimo filho segundo d'uma casa secular, ainda o mais empobrecido, e o mais privado de intelligencia, será sempre estimado, pela sua casta, acima de todos os genios, e de todas as illustrações do seu seculo.