Foi a experiencia, talvez, d'estas justas considerações, que, nos salões de Luiz XVIII, levou um dos mais illustres marechaes do imperio a dizer a um fidalgo do exercito de Condé: «Eu sou o meu proprio antepassado.»

A nobreza antiga, com excepções rarissimas de que me não occupo agora, queria liberdades e garantias—queria; mas exigia-as dentro do circulo da sua casta, requeria-as para si e para os seus.

Fóra d'esta linha divisoria, d'este limite sagrado só via a plebe. Direitos, faculdades e poderes originavam-se no numero dos avós. Quem não tinha ascendentes conhecidos e nobilitados não era pessoa juridica, não era homem: vivia á mercê da misericordia infinita da nobreza. Triste situação era esta! Mas era assim.

Rezam as lendas ou as chronicas, que uma nobre dama da côrte dos Valois não escrupulisava despir-se diante dos seus lacaios, segundo o dizer de Brantôme. Que importava a sensualidade da gentalha! N'este esquecimento e desdem, pela plebe, vivia a aristocracia portugueza, na contemplação de si mesma, como o Zeus dos indus na vasta cosmogonia do Oriente.

O vulgo, a populaça era a machina posta ao serviço do fidalgo.

Terminada a lucta da successão começaram a recuar, nos seus esforços patrioticos, muitos dos nobres, que militavam nas fileiras populares.

Era de prevêr.

Os factos consummados tinham mais força do que todas as aspirações, e cegos desejos da nobreza—que se dizia liberal.

Espiritos pouco previdentes, por nenhuma fórma habituados a estudos sociaes, inexperientes em todos os actos da vida civil, creados no desprezo e desconhecimento do trabalho, que, accumulado, produz a riqueza publica, esperavam encontrar, na côrte do imperador, as tenças realengas, obtidas, pelos serviços, que só não são estereis para a lisonja, imaginavam conservar, como monopolio das suas casas solarengas, os cargos hereditarios, os empregos vitalicios, as patentes no exercito, sem habilitações obrigadas para as exercer, e os lugares privativos e rendosos em todas as ordens militares e religiosas.

A carta constitucional poderia tornar-se letra morta. Demais, a nobreza não tivera tempo para estudar foraes, nem cartas de alforria. A aristocracia estava habituada a vêr derogar leis do reino por provisões regias. Para alguma cousa deviam servir os poderes magestaticos.