D. Domingos de Magalhães, o arcebispo de Mitylene, morreu, quando a fome voluntaria o acabou de matar. Não houve razões de amigos e de theologos que o movessem a tomar um pouco de alimento. Não dava explicação, sequer insensata, da sua rigorosa abstinencia; mas, entre os seus manuscriptos, se nos depara tal qual luz, consoante ella se póde desferir das profundas trevas.
Diz assim um capitulo intitulado O Impassivel:
«A impassibilidade ha de ser a futura condição do homem santo que seria semelhante ao cadaver; a natureza corrompida e degenerada é a séde da dôr e da molestia, porque a sua sorte e futuro destino será a maxima degeneração do ente, ou a regeneração e renovação do servo, que o Senhor creou, e collocou no paraiso.
«Existe na sciencia theologica um paralogismo, que convém decifrar e resolver: a cada passo ouvimos dizer que o homem mau não morre, e que a sua sorte é a morte eterna: a questão está só na dicção e na phrase; é uma amphibologia ou questão de palavras. O homem mau não aceita a morte voluntaria para expiar a pena do peccado; e, como resiste ao decreto da divina misericordia e graça, não morre para resuscitar, não se regenera, perverte-se e corrompe-se cada vez mais.
«O homem santo mata o corpo natural para receber o eterno, perde o maculado para conseguir o immaculado, troca o barro pelo ouro, e corôa-se com o martyrio do sangue e do amor, ou com o diuturno da penitencia e da santidade. Toda a vida humana deve ser um martyrio, ou um aggregado de virtudes e de qualidades equivalentes. O homem mau tenta conservar o fumo, que o asphyxia no inferno, não se mata nem resuscita, perverte-se e degenera, corrompe-se e materializa-se cada vez mais.
«O primeiro homem morreu no paraiso, mas conservou o cadaver da galvanisação eterna; o segundo homem perde-se no exilio, aonde morrem todos os que o preferem á patria, e renuncia-o ás suas saudades, amor e realeza.
«O homem mau tem duas degenerações: a primeira materialisou-o, a segunda ha de bestialisal-o a desfigural-o, privar o ente de suas esperanças, promessas, e de toda a gloria, fraternidade e bemaventurança eterna.
«A regeneração faz o homem impassivel, e opéra muitas vezes em vida os seus beneficos e maravilhosos effeitos. O paraiso ha de exaltar e acrisolar estas sublimes virtudes, porque a humanidade santa ha de seguir até ao fim dos seculos e das gerações e conquistar pela divina misericordia todos os dotes sobrenaturaes dos corpos gloriosos.
«O homem santo será impassivel, sem dôr e sem temor, superior á natureza, e semelhante aos anjos, e comtudo pagará o seu tributo á morte por uma diuturnidade de provas pela penitencia e pelos votos mais solemnes e agradaveis ao Senhor, e por todos os sacrificios que podem exagerar e exaltar a virtude do homem.
«Muitos santos conseguiram em vida alguns dotes de impassibilidade; os authores pouco versados na sagrada theologia e nos seus arcanos, ousam asseverar que a dôr e a fome, a morte e as tribulações são consequencias necessarias da natureza humana por ser limitada, contingente, e passageira: se dissessem, que são consequencias immediatas da natureza degenerada, e penas propostas pelo Senhor ao reato, do peccado original, diriam a verdade, e fallariam ou escreveriam com exactidão, com logica e coherencia de principios.