«Se bem me lembra, Antonio Genuense cahiu no erro dos que mettem a fouce na seara alheia sem conhecimento de causa, sendo em geral mui prudente e avisado.
«S. João Baptista não bebia vinho nem cerveja, comia mel silvestre; o Stylita comia um bocado de pão só aos domingos, e permanecia sempre fixo, immovel, e levantado sobre a sua columna de dia e de noite, de verão e de inverno, annos e lustres por divino milagre.
«S. Paulo Eremita era sustentado por um corvo, comia diariamente só o que a ave do agouro podia trazer no bico, era um bolo do céo: os exemplos são innumeraveis: todos provam que a humanidade santa ha de conseguir no paraiso até o fim a impassibilidade da dôr e da fome; porque no céo não se come: os maus soffrerão lazeira e esuria no inferno, porque o mundo está condemnado ao fogo e á perdição.
«Estas verdades são dogmaticas; os herejes negam todos os milagres do divino martyrologio da santidade; obrigam-nos a fallar de nós: quando chegar o tempo da maxima profanação humana, o fiel regenerado beijará a mão que o sacrificar pelo martyrio, e desejará com elevada ambição receber pessoalmente a sua corôa em vez da outorga na communhão e na sua geral misericordia; o que se coroar pelos seus esforços, e pelo odio da tyrannia será mais ditoso e mais laureado: a morte é uma pena para o que recusa pagar a divida eterna; o que paga voluntariamente expia pelo amor divino a maxima gravidade do castigo e consegue a sua impassibilidade: o martyrio é uma virtude de communhão, as suas provas serão cada vez mais faceis e mais suaves para os santos pela união com Deus. No paraiso será um sonho e um devaneio, um magnetismo e uma transmigração voluntaria.
«A impassibilidade, a virgindade, a geração espiritual, o desejo e o voto do martyrio, o jejum completo, ou as aspirações da abstinencia e da penitencia hão de ser frequentes e geraes, admiraveis e sobrehumanas na divina providencia do paraiso: convém persuadir estes desejos e esforços, para que ninguem desanime, ou recuse a reconquista da perfeição e da pureza por julgar impossivel ou difficil o transito, ou aspero e intratavel o caminho que conduz ao summo bem.
«Eu tomei rapé com excesso por espaço de vinte annos, por conselho de medicos, e por habito, gosto, vicio ou paixão, quando principiei em Lisboa o culto soberano do sagrado lausperenne ao Santissimo Sacramento no anno de mil oitocentos e cincoenta e oito; era eu só para o exaltar, não tinha acolyto, nem ministro, dizia missa diaria, adorava duas vezes por dia com treze luzes de cera sendo uma só de azeite, rezava o officio divino, escrevia, trabalhava, compunha, e via-me na necessidade de vigiar de dia e de noite as luzes de cera e azeite que ardiam diante da divina magestade do Santissimo, e de lavar a casa da minha basilica; e por isso dormi poucas horas, e sempre vestido no decurso de dezeseis para dezesete mezes de continua e incessante adoração, sem uma falta, e deixei o uso do rapé por decencia e reverencia até o dia de hoje sem quebra, e sem perigo, sem saudade e sem pezar.
«Minha mãi mandou pôr á minha disposição um bote de rapé no anno de 1860, em Villa Pouca, aonde eu já não adorava, nem podia dizer missa: o rapé esteve na gaveta mais de um anno; eu nunca mais abri o bote e padeci grandes dôres de dentes, que me determinaram a extrahir alguns a ferro; quando fui ao Porto offereceram-me rapé, eu não aceitei.
«Eu vivia parcamente, mas a minha mesa sempre foi abundante e até lauta; jejuava e comia carne nos dias permittidos, o melhor peixe e guisados, e todos os appetites que a boa mesa offerece: eu não procurava os seus regalos, mas não repellia nenhum dos permittidos: agora faço penitencia, e não como carne nem peixe ha mais de oito annos. Em 1860 comi carne algum tempo em pequena quantidade, mas logo a deixei e todo o peixe até agora: passei mais de um anno só com um quartilho de leite por dia e com menos de quarenta reis de pão, e com um arratel de assucar chegava para treze dias até dezeseis.
«Nunca fui apaixonado do vinho, mas não o repellia inteiramente; agora não bebo vinho, nem bebida espirituosa ha annos. Como por dia menos de 40 reis de pão, jejuo tres dias por semana, ás quartas, sextas e sabbados, e ha mais de tres annos ainda não faltei a esta disciplina de jejum nem nos dias de jornada.
«Nos outros dias tomo um café com leite, um vintem de pão, e uma quarta de assucar chega para cinco dias, e diminuo a minha sopa que consta de uma dóse de arroz com manteiga, ou com azeite segundo o dia; um arratel chega para cinco dias, e ás vezes para seis: á noite como um bocado de brôa ou de pão.