—O marido disse: Arreda!

II

Vejamos a philosophia que elles tem.

Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre partes que litigavam em materia de casamento. Figurava uma donzella depositada judicialmente. O pai da nubente impugna, e allega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilissima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura e de origem tão canalha que, apezar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas, como é publico e notorio, dizia o noivo, e accrescentava: «que não havia ainda vinte annos que o seu contendor exercitára o officio de fogueteiro em Villa Nova de Famalicão.» N'este conflicto, a depositada trancára o pleito vergonhoso acceitando outro marido que o pai lhe inculcou. A menina questionada era aquella morgada de Romariz, e o marido o commendador Alvarães.

Quanto a philosophia, este acontecimento pareceu-me assaz chôcho; eu pelo menos não lh'a encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei o procedimento da moça injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento de tal philosophia não me dava para levedar massa de cincoenta paginas. Abri mão do assumpto, e larguei-o ás imaginações florentissimas da minha patria. Porém, transcorridos dois annos, em um livro impresso em 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novella em que, por felicidade do leitor e minha, não ha philosophia nenhuma, que eu saiba.

III

Quando Villa Nova de Famalicão era um burgo de cem visinhos com um juiz pedaneo, sahiu d'ali para a côrte, em 1744, um rapaz de quinze annos, que principiára com seu pai officio de pedreiro. Assignava-se Antonio da Costa Araujo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de pannos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 occupava parte do terreno hoje comprehendido na rua Augusta. Mathias da Costa Araujo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apezar dos poucos meios, mandou-o ás aulas dos jesuitas no pateo de Santo Antão, afim de o habilitar para clerigo, contra a propensão mercantil do moço. Mathias havia sido infeliz no commercio, e dizia que era máo modo de vida aquelle em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lh'o a catastrophe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da egreja de S. Julião, onde assistia ás missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lh'os todos o incendio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a grammatica latina do padre Alvares com os cartapacios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, visinho e amigo do defuncto Mathias, condoido do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da especie de mercadoria em que mais seguro negocio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, applaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por agua e fogo. Antonio da Costa Araujo arrematou por preço infimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araujo no Campo de Santa Anna, e ganhou, no primeiro anno, com estas fazendas avariadas, doze mil crusados.[6] Volvidos seis annos, era um dos mercadores mais opulentos da côrte; morava no primeiro quarteirão da rua Augusta, á esquerda, indo do Rocio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Joia. Tinha camarote effectivo na opera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazens a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortezia: chamava «joias» ás damas, e d'ahi lhe pegou a elle a alcunha desmaliciosa. Confluia ao seu balcão a flôr da cidade, por que ninguem o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contractos. «Ali vinham—diz o coronel Francisco de Figueiredo—comprar-se os enxovaes para os grandes casamentos, o vestuario para todas as grandes funcções, de que houve muitas, entrando n'este numero os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de principes, os dias de annos de toda a real familia, e os trez dias das funcções da inauguração da estatua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de tão gloriosa memoria.»

Costa Araujo não compellia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortunio dos que não podiam gosar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quiz o marquez de Pombal nobilital-o como fizera a outros commerciantes, mais para abater a fidalguia historica do que para levantar a burguezia industriosa. O Joia nunca pediu nem acceitou distincções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado á hombreira da porta como hoje o não faria um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e oleo de amendoas dôces.