Á volta dos sessenta annos, Antonio da Costa Araujo enfermou de paralysia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como seu pae, e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe désse boa mezada, sem todavia lhe aconselhar officio menos grosseiro, por intender que são muitos os pedreiros felizes e pouquissimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.

O paralytico fez testamento em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irmão Bento da Costa tres mil peças de 7$500 réis.

Fallecido o Joia, appareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exhibia com visagens consternadas, dizendo que não herdára outra cousa do irmão, o qual, tudo gastára e morrera pobre. O pedreiro, suppondo que o acreditavam, era boçal á proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia illustra os minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentarias; mas a noticia da herança de Bento chegára a Famalicão primeiro do que elle. Cincoenta e seis mil crusados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha n'um tempo em que bazofeava por Lisboa um argentario a quem chamavam O tresentos mil crusados, por que elle, vindo do Brazil, manifestára aquella colossal e quasi fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quasi uma vergonha possuil-os; e quem não fingir que tem essa somma quadruplicada, é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar se de ser recolhido a um asylo de mendicidade.

O pedreiro era viuvo, vivia só, e tinha um filho soldado de artilheria do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a noticia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-n'o, porém, o espanto e a consternação, quando encontrou o pai á orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdára tres mil peças de ouro. O velho poz os olhos espavoridos no céo, abanou a cabeça como os personagens da Iliada, desfechou contra o filho um esgar desabrido, e bradou:

—Tres mil peças!? tres mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscal-o, que elle lá está pendurado n'um gancho… Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?

—Vinha pedir-lhe, senhor pai—respondeu o moço com tristeza e respeito—que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente, e preciso mudar de vida.

—Trabalha, faze como eu, que tambem não posso, e estou aqui a furar este calhau. Quizeste ser soldado… lá t'avém.

—Senhor pai, olhe que eu sahi da praça sem licença… sou desertor…

—Não me digas isso segunda vez, que te regeito esta broca á cabeça![7]

—Faz-me vossemecê uma esmola—replicou serenamente Joaquim—que eu antes quero a morte que as chibatadas… Sabe que mais, senhor pai?—proseguiu o desertor limpando o suor e as lagrimas—ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me á quadrilha que anda na Terra Negra.