—E tu a dar-lhe!…—volveu iracundo o pedreiro—Já te disse que as procures!… Não herdei nada! não herdei nada!—e berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os braços.

—Não grite assim que não faz mingua barregar!—atalhou o filho—A gente está conversando… ás boas… ein?

No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito, e disposição a questionar faceiramente com o velho.

—Com que então…—proseguiu Joaquim—Vossemecê não herdou tres mil peças?

—Não!—bradou o pai—Não! com mil diabos (Deus me perdôe), não!

—E se eu lhe mostrar a copia do testamento…—volveu Joaquim esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o seu comprimento—Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a copia do…

—Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!—interrompeu Bento, desentalando-se da sua afflicção por aquella estupida replica—Amaldiçoado sejas tu!…—E, com os dentes cerrados, e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.

—Sr. pai!—continuou mansamente o filho—isto não vai a matar. Tome fôlego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados…

—Olha o diabo!—regougava o velho.

—O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e nunca mais lhe peço nada, sr. pai.