Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade de esperança, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.

—Mil cruzados!—resmuneava o pedreiro—onde queres tu que eu os vá roubar?

Esta interrogação varreu do semblante do Faisca os signaes da boa reacção.

—Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus!—respondeu Joaquim—Mas, a fallar verdade, quem tem tres mil peças de seu tambem pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vintens desde que pode trabalhar… Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe… Eu para a Praça não torno. Sou desertor.

—Venho de casa de teu padrinho—acudiu o pai menos tôrvo—o sr. coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se hade arranjar.

—Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.

—Que te leve a breca… Não quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro não tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores á beira dos cães.

—Está bom—concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se—vou ouvir a opinião do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me da farda e da chibata…

—Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?

—Pois então? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me fôr necessario dinheiro…