Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.

—A pedra aqui é mais larga—disse o fogueteiro á mulher.

—Agora é!—emendou ella—o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.

E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superficie da pedra que não era mais grossa que a outra.

—Dizes bem, é isso—approvou o marido.—Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.

E, dizendo, pegou d'outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, em quanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.

—Aqui ha madeira—disse ella.

—É alguma cascaria que tinha mão no barro—explicou Silvestre.

A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.

—Parece que bate em vão…—notou ella.