—O quê?!—acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.—Bate em vão! que dizes tu?!
—É o que te eu digo… Olha… Ouves?
—Ó mulher!—exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua não ousava formular.
E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.
—Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga—disse elle.
—Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!—disse o mais ancião dos curiosos.—Que dinheirão aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perdôe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!
—São fadarios, tio Simeão!…—disse Silvestre.
—Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai…—tornou o velho.
—Assim é; mas não o quiz Deus. Desgraças…
—Ora faça vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu avô!