—Ainda venho a tempo!…

—Pois sim; mas faça de conta que o topava! Vossê que fazia, ó sôr
Silvestre?

—Eu sei cá, tio Simeão!

—Foguetes é que vossê não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!

—Não fallemos n'isso… Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.

—Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil peças, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!

—Está enganado! não pintava nada… Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.

—Vem d'ahi, homem—disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.

Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.

No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.