Por esse tempo, um fidalgo da côrte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na provincia do Minho. Nos arrabaldes de Barcellos demorava a principal das quintas, que havia sido paço senhorial. Chamava-se a Honra de Romariz, e já fôra dote de D. Genébra Trocozende, no seculo XII, casada com D. Fafes Romarigues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que a final degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompantes do seu escudo.
Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabellião de Barcellos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casaes e leiras o filho de Joaquim Faisca poude comprar á volta da Honra de Romariz incorporou-as no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.
Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em annos bastante serodios, deu-lhe ella uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito annos, a moça, filha unica, e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infancia. Aos dezoito annos, compozeram-se-lhe as feições com proeminencias grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumescente das espaduas. Felizarda tinha uns archejos de cansaço que lhe alindavam o carmim do bom sangue.
Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores d'esta flôr de gira-sol, queixando-se da demora que ella posera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar tres dias a rima:
Eu, que sou fogo, não tardo, ella, que é gelo, é que tarda, Se eu, que amo, feliz ardo, Felizarda feliz arda.
Ella deu pulos a rir como se tivesse a critica de mad. Girardin.
Por esse tempo, 1846, Silvestre de S. Martinho estava muito rico, mas muitissimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos annos. Ás vezes, mandava comprar polvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada, e fazia foguetes para se distrahir. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia á mãe que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.
A sr.^a D. Maria, excellente matrona e mãe, não se enfastiava, como o esposo, por que moirejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as creadas á lareira, e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cosinha.
Mas o marido que, tirante as diversões pyrotechnicas, não fazia nada, andava dispeptico e clorotico, quando teve de optar entre fogueteiro e politico.
Era no tempo da patulea. Silvestre manifestara-se progressista nas bellicosas eleições de 1845 em Barcellos, e sentiu-se invadido pela paixão sociologica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvarães. No anno seguinte, influiu no movimento de maio, e manteve-se nas idéas avançadas até outubro em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram no Largo da Aguardente, duas cavalgaduras que iam á praia da Foz buscar a mulher e a filha. N'este conflicto, oscillou politicamente entre os irmãos Passos que amamentavam a republica nos seios dessorados da liberdade cachetica, e o padre Casimiro José Vieira, o Defensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel I no Bom Jesus do Monte.