—Faze o que te digo.
—Escolhe outra testemunha, em quanto eu vou avisar o regedor—returquiu sorrindo José de Almeida—eu cuidei que eras um rapaz valente e prudente. Não te batias, ha pouco, por que as tuas vantagens repugnavam ao cavalheirismo; e acceitas o combate, dada a igualdade que pode dar-se entre dois assassinos estupidamente ferozes!
Pacheco ria-se: e Almeida discorria rasoavelmente.
—Faze o que te digo—repetiu o morgado—Pois tu, creança, persuades-te que o Abreu deseja bater-se em taes condições? Os covardes tem fantasias d'essas em quanto o desafio procede nas incruentas conferencias dos parlamentarios. Assevera tu ao Alvaro que eu acceitei o combate á ponta de lenço; e espera o desfêcho.
—Mas suppõe que elle sustenta a palavra!…
—Sustentarei a minha;—e, batendo-lhe no hombro, accrescentou:—Vai socegado. O homem tem mais amor á vida que á honra. Ouviste? Se elle propozer o duello á ponta… de lingua, declara loque não acceito.
Os bracharenses, ouvindo a resposta do Almeida, ficaram embaçados e atonitos. O mais cordato, com o louvavel intento de economisar sangue illustre, ponderou que era uma desgraça matarem-se dois cavalheiros da primeira nobreza do Minho, e aventou o seguinte:
—Se João Pacheco lhe desse uma satisfação na presença das pessoas que ouviram a injuria…
—Satisfação… como?—inquiriu o Almeido—Dizer-lhe que não o reputa carrasco? A emenda é peor que o soneto. Não proponho isso. Deixal-os matarem-se! Morrem gloriosamente. Tanto faz morrer de calculos na bexiga como de uma bala no coração. João Pacheco já teve em Lisboa e Madrid quatro duellos de morte, e está vivo.
—Parece-me isso extraordinario!—observou maravilhado o braguez, suppondo que no duello de morte era obrigatorio morrer.