Em uma gazeta do Porto, de 15 de novembro do mesmo anno de 1851, lia-se esta correspondencia datada no Arco:
_Esta villa soffreu a perda irreparavel de um cavalheiro consummado em toda a extensão da palavra e representante de uma familia, talvez a mais illustre das provincias do norte, pois entre os seus avoengos se conta o grande e immortal Duarte Pacheco Pereira, por antonomasia o «Achilles lusitano», e o «Leão dos mares».
Hontem de manhã sahira o sr. João Pacheco a visitar uma sua prima em Refojos de Basto, onde passou o dia até ás 4 horas da tarde. O cavallo em que montava era um pôtro não educado ainda, e comprado nas manadas hespanholas que vieram à feira de S. Miguel. Os seus amigos, posto que João Pacheco fosse optimo cavalleiro, muitas vezes lhe observaram que os caminhos precipitosos destas aldeias eram improprios para ensinar pôtros. Fiado, porém, na destreza do pulso e firmeza de joelhos, o temerario cavalleiro rompia por esses algares e barrocaes com um denôdo digno de melhor emprego. Realizaram-se funestissimamente as previsões dos seus amigos.
Ao luzco-fuzco entrou pelo portão da caza de Val-Escuro o pôtro sem o cavalleiro, com as redeas e bridões despedaçados. O mesmo foi levantar-se na caza um clamor a que todos os visinhos acudiram. João Pacheco era extremosamente amado por trez tias, respeitaveis senhoras, que não viam outra coisa n'este mundo. Amigos e creados, sahimos todos pelo caminho de Refojos; e a meia legua de distancia, em um barrocal fundo e lamacento (espectaculo doloroso!) encontramos o cadaver de João Pacheco, de bruços, com as mãos submersas no lamaçal, e sem gotta de sangue que denunciasse o orgão ferido. Como era já escuro, e o cadaver só podia levantar se depois do exame judiciario, ali ficamos alguns amigos até ao dia guardando os despojos de tão nobre moço, desastradamente morto na flor da vida! O cirurgião examinou-o, e apenas lhe encontrou o craneo amolgado, sem extravasação de liquidos, excepto dois fios de sangue que derivavam do nariz. Presume-se com bom fundamento que o cavallo o cuspira contra uma rocha angulosa que forma um dos vallados da barroca; por que tambem na palma da mão direita mostra contusões resultantes de se amparar contra as escarpas do penhasco. Não pode attribuir-se esta catastrophe a outra causa que não seja a queda. Se fosse homicidio, seriam outros os vestigios de ferimentos; alem de que, João Pacheco era bem-quisto, honestissimo, respeitador da honra das familias, não obstante haver sido creado e educado em Lisboa. Alem de rico, era um gentil moço; pois não consta que deitasse a perder alguma d'essas centenas de moças pobres que se consideram felizes quando os fidalgos as levam á vereda da deshonra.
Nós, os seus amigos, choral-o-hemos em quanto as suas virtudes lembrarem como exemplo a filhos e a cidadãos. Que descance na perpetua morada da virtude o tão chorado mancebo; e peça ao Altissimo resignação para as suas inconsolaveis tias_!…
Quando li compungido esta correspondencia lembraram-me as palavras de Pacheco, na ultima hora em que o vi: Não vos admireis, se um dia vos constar que fui assassinado á traição. Communiquei a minha desconfiança a José de Almeida.
—Palpita-me que foi assassinado pelo Abreu!—concordou o meu amigo, e accrescentou:—Escrevo hoje ao abbade de St.^a Eulalia, citando-lhe as palavras de João Pacheco, e pedindo os pormenores do desastre.
O abbade respondeu que eram infundadas as nossas desconfianças: por quanto, no dia 11, em que João Pacheco perecêra, estava Alvaro de Abreu na feira de S. Martinho em Penafiel com elle abbade e com as senhoras morgadas de Athey; e que por signal n'esse dia perdêra o Abreu cento e tantas moedas de ouro ao monte, á vista de dezenas de pessoas que nunca o tinham visto jogar…
E rematava a carta d'este theor:
Os namorados fizeram as pazes. A pequena veio das Caldas muito coada de côres e com grandes… olheiras.—(ia a escrever «orelhas») Nos primeiros dias, enfanicava-se a cada passo, e dava uns ais romanticos como as damas de Basto de 1825. Infandum… renovare dolorem. Depois, a mãe, que tambem é matreira de 1825, escreveu ao Abreu dizendo-lhe que sua filha era victima da ingratidão d'elle. Aquella «lua cheia» de Vizella, de que V. S.^a me fallava, não foi ouvida a tal respeito. Ora o Abreu quer me parecer que sabia pouco menos que a referida Tetis, e que o janota luso-britannico de que reza a chronica escandalosa das thermas romanas no corrente anno, 1890, da era de Cezar. Porém como o patrimonio d'elle é magro, e as fazendas de Athey são de encher (e de fechar) o olho, V. S.^a verá que, a final, a morgadinha, embora não tenha que desatar a cinta virginal, apanha marido, parente, fidalgo e bacharel. Se, depois, as costellas lh'o pagarão, isso não é da minha conta. Lá se avenham; mas melhor será que elle se resigne, e feche os olhos como no duello, por quanto saco com honra e proveito é raro, ou não o ha, se o anexim é tão verdadeiro, quanto eu sou de V. S.^a amigo e venerador, Abbade Silva.