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Joeirando as minhas reminiscencias de coisas relativas a Irene, referidas pelo abbade em cartas a José de Almeida, apuro o seguinte, na correnteza dos annos de 1853 a 1855:
Sem impedimento dos dissabores conjugaes, Irene deu á luz o seu primeiro filho, e, mediante o praso restricto para o phenomeno da geração, provou a sua fecundidade com segundo rapaz robusto. D'onde se deprehende que elle a não espancava incessantemente.
Irene vivia mais desopprimida desde que o marido reatara com uma raparigaça barrozan a mancebia interrompida pelo cazamento. Elle pernoitava fóra noites seguidas, e não soffria em caza a menor inquietação com ciumes.
Durante o primeiro anno, raro dia passava que a não atanazasse com perguntas cruamente tôrpes ácerca de Jacques Smith. Depois, parecia esquecido ou reconciliado, se não era antes o receio de que a mulher lhe fugisse e a sogra alienasse as quintas.
No meado de 1855, a morgada velha falleceu nos braços da filha, recommendando-lhe que recorresse nas suas afflicções ao abbade de Santa Eulalia. Desde este dia, recrudesceram em Alvaro de Abreu os desprezos, as injurias e até a diffamação da mulher. Aos seus parentes, que o arguiam de devasso, respondia que lhe era mister aturdir uma deshonra com outras: e, pondo em miudos a phraze amphibologica, delatava a fragilidade ante-matrimonial de sua mulher e parenta.
Apertada pelos insultos face a face, Irene disse-lhe um dia:
—Se eu tivesse um irmão que pegasse n'uma espada, vossê não me offenderia assim…
—Se vossê tivesse um irmão que pegasse d'uma espada, e me ferisse com ella, iria para onde foi um homem que uma vez me feriu…
Irene não percebeu o sentido latente da replica; mas referiu ao abbade a passagem, digna de ponderação.