—Quem sabe—dizia elle comsigo—se José de Almeida acertou quanto á morte de João Pacheco…

Os criminosos asilados sob as telhas de Alvaro de Abreu favoreciam a suspeita: entre outros somenos na tuba da fama, avultavam o José Pequeno da Lixa, e José do Telhado, que o neto dos senhores de Regalados sentava á sua meza, quando Irene ficava no quarto. Entrou em averiguações o abbade, e soube que os dois salteadores, quando João Pacheco morreu, estavam na caza dos Abreus de Refojos, jogando a esquineta com os creados.

Como quer que fosse, o abbade entrou-se de mêdo bem intendido, quando Irene lhe pediu que a protegesse e resgatasse da escravidão em que vivia.

—Este homem, se eu me intrometto nos disturbios de sua caza, é capaz de mandar um dos seus scelerados apunhalar-me!—conjecturava elle racionalmente.

Não obstante, indagava com cautella o modo de libertar Irene pelo divorcio, ou pela fuga para mosteiro ou casa de familia honesta. As familias honestas recuzavam-se a receber a esposa diffamada pelo marido; as menos honestas esquivavam-se a desavenças com Alvaro de Abreu, respeitando mais os hospedes que o hospedeiro. Os donos das casas endinheiradas dormiam tranquillamente, em quanto o amigo do José do Telhado e José Pequeno lhes não retirasse a sua estima.

E, n'aquelle tempo, havia governadores civis, administradores de concelho, regedores, cabos de policia, etc. Esta corporação de funccionarios não prendia ladrões: fazia deputados.

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Irene instava com urgentes rogos. Dizia desatinos ao abbade. Traçava planos vulgares; mas de escandalo estrondoso. Fugiria para o Porto onde estava um homem que ella amava: iria pedir-lhe o amparo do amante ou a vingança do cavalheiro. Tinha lido o Palmeirim de Inglaterra; mas não conhecia o Cavalleiro da triste figura. O abbade recommendava-lhe juizo e paciencia: e cuidava mais fervorosamente em salval-a do amante que do marido. Fallava-lhe dos filhos. A commoção era mediocre. As mães que desafogam as suas angustias, ajoelhando á beira de um berço, estão salvas. Irene carecia da virtude redemptora das esposas, que fazem os seus anginhos intercessores com a justiça divina. Era criminosa. O marido cuspia-lhe uma injuria, e ella abaixava o rosto indelevelmente manchado. Um dos esteios da honra quebrara-o a moça solteira em Vizella: restava-lhe outro—o da sinceridade com o noivo aborrecido: quebrou-o tambem. Se a sorte lhe deparasse marido tão amante quanto generoso, a regeneração fal-a-hia o esquecimento do erro, e o segundo baptismo da alma seria a uncção das lagrimas nas faces cariciosas dos filhos. Havia uma chaga a cicatrizar na consciencia de Irene: não lh'a leniram com o balsamo do amor ou da caridade: exulceraram-lh'a a ferroadas de inuteis vituperios. As mulheres assim, quando não se engolpham no tremedal, ou são feias como o peccado, ou predestinadas como santa Pelagia e santa Maria Egypsiaca.

O abbade de Santa Eulalia solicitou a protecção de um prelado, seu parente, a favor da desditosa Irene. Conseguiu-se a entrada da esposa fugitiva no convento de Santa Clara de Coimbra. O abbade avisou-a, guiando-a no passo da fuga. Irene deveria sahir para uma das suas quintas de Cerva, onde costumava ir no outomno, e fugir de lá com duas pessoas da confiança do abbade. Acceitou alegremente a proposta; porém, dias depois que se transferira á quinta d'onde devia fugir, com effeito fugiu: mas não eram confidentes do abbade as pessoas que lhe protegiam a retirada pela serra de Marão em direitura ao Porto.

A mulher de Alvaro de Abreu escondeu-se nos arrabaldes d'aquella cidade, no Bom-Successo, em uma casa-chalet, telhada e ladrilhada de asphalto negro á ingleza, com stores impenetraveis, e á volta um silencio sepulcral a ouvir—permitta se-me a expressão—os suspirosos murmurios que lá dentro se atabafavam nas alcatifas e nos cortinados.