Isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa
gente no dia de hoje.
Theatro de Manoel de Figueiredo. Censores do theatro, T. VI, pag.
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Ao Dr. Thomaz de Carvalho
*GRACEJOS QUE MATAM*
Ordinariamente, chamam-se á franceza—espirituosos—uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:
Chocarreiro—tregeiteador—arlequim—palhaço—proxinella—polichinello— —maninêllo—truão—jogral—goliardo—histrião—farcista—farçola—végete— —bobo—pierrot—momo—bufão—folião, etc.
Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.
Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.