Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.
Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.
O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.
É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.
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Era em 1851.
Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa. O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a memoria.
Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.
Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».
O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias: