D. Helena da Penha, chamada na sua terra a Morgada velha. Cincoenta e tantos annos, viuva do capitão-mór de Athey, educada em convento, murmurando da educação e dos costumes do claustro, d'onde sahira com incertos conhecimentos do cathecismo, e alguma instrucção em bisca sueca, e no Feliz independente do padre Theodoro d'Almeida. Excellente senhora que se conteve viuva desde os trinta e dois annos viçosos e temperados sanguinamente para não dar padrasto á filha unica.

D. Irene, a Morgada nova, vinte e sete annos, galante, mais menina que a sua idade, cheia de denguices, amimada, acriançando-se em tregeitos e dizeres, descompondo os artificios pueris com uns ares de desgarro e desinvoltura—em bom sentido, aliás.

Decerto já observou, leitor, em senhoras de provincia um desembaraço bronco, um remecherem-se e bacharellarem despropositadamente,—desaires resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indicios de educação aldeã. Estes despêjos improvisados sem delicadeza nem natural, quando topam diversa sociedade em praias ou caldas, dão-lhes ares do que não são, e abrem margem a suspeitas indecorosas; por que ellas, com taes artes, conseguem desornar-se dos commedimentos do pudor.

D. Irene era assim. Depois veremos o que ella era mais compridamente.

Direi agora dos cinco sugeitos do grupo.

O abbade de Santa Eulalia, passante da meia idade, pagão em litteratura, mestre de latim no seu concelho de Cabeceiras. Citava Virgilio apropositadamente. Quando alguem se dizia regalado com a frescura do salgueiral, declamava um trecho das Églogas em que havia sálices. Ao sentar-se na corcova do tronco retorcido de um amieiro, exclamava sempre, sibilando as delicias do meio-grosso: sub tegmine. Tinha rheumatismo e contava muitos cazos milagrosos d'aquellas aguas, e outros cazos de amores que alli passaram, quando elle acompanhava sua mãe, no tempo em que as senhoras de Cabeceiras de Basto por la faziam (dizia elle) o seu S. Miguel d'amor. Em cavaco de homens, gretava-lhe a indole, e declarava-se o personagem ou protogonista dos cazos attribuidos a terceira pessoa em prezença das morgadas. Honestava com citações de Ovidio (Ars amandi-passim) a lubricidade dos peccados da sua juventude: e dizia com uncção de velhaco: Delicta juventutis meoe, suspirando. Ás vezes, encontrando senhoras sertanejas de Basto, acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: «Aqui vem uma das taes»—Uma das taes vinha a ser uma das suas amadas, de 1825, a sylphide que elle havia ensinado a dançar o minuete e a gavota com outras prendas, e não dava agora, no pizar coixo e na gordura fôfa, o minimo vislumbre de ter sido sylphidica e bastante leveira para o gingar picado da gavota. «Está como eu» dizia o abbade.

……………………….. Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecêl-a!…

Cantava Garrett de uma das suas estrellas cadentes. O abbade, ao menos, conhecia-as, embora enrocadas em tecido adiposo, e remoçava-as na sua imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão. Bom e discreto conversador, se a materia obrigava á seriedade: philosopho ecletico, alegre, rijo de estomago, cabralista por amor da ordem, e herege, por que negava que o Espirito-Santo concorresse ao Concilio Tridentino. Em sciencias ecclesiasticas, ignorantissimo por livre vontade e voto deliberado. Eis o abbade de Santa Eulalia.

Alvaro de Abreu, da estirpe dos Abreus de Regalados, filho segundo da caza e Honra de S. Gens, em Refojos de Basto, bacharel em direito, vinte e nove annos, compacto de carnes, barbaçudo, cara plebea, esbatida nas proeminencias malares, testa descantoada e pilosa até aos arcos das sobrancelhas. Annel de ouro com armas: em campo vermelho cinco azas de ouro sanguineas nas cortaduras postas em sautor; timbre, uma aza identica. As mesmas armas na cigarreira de prata, e nos botões dos punhos, e na amethysta dos berloques antigos, pendentes em châtelaine do coz das calças. Tinha cavallo, e lacaio fardado de azul com guarnições escarlates, botas de picaria com prateleira e espora amarella encorreada de branco. Era intelligente como a maioria dos bachareis formados, e talvez mais. Em Coimbra, dado que não versejasse, era da roda do Couto Monteiro, do Luiz de Bessa Correia, do João de Lemos, do brazileiro Gonçalves Dias, do Lima poeta e de Evaristo Basto. Recitava sentimentalmente ás morgadas os soláos dos irmãos Serpas; e as parodias do Bessa e Couto Monteiro.

Cabula minha pachorrenta e gorda
Quem d'entre as folhas te espremeu dos livros!