O missionario, entrado á salla, fechou a porta, e disse:

—As creanças podem entrar por que são anjos, e não entendem as nossas palavras. Em nome d'ellas, tenho de pedir: e ellas pedirão commigo.

Alvaro de Abreu escutava-o em pé, immovel, hirto. O abbade mal o divisava na quasi escuridão da vasta quadra, assombrada de castanheiros seculares.

—Sr. Alvaro de Abreu,—proseguiu o abbade com a voz tremente—ouvi de confissão, em artigo de morte, Manuel Fialho, o homem que matou João Pacheco, com a pancada de um mangual na cabeça, e á traição, na Barroca das duas fontes, ao anoitecer do dia 11 de novembro de 1851. Este homem só comprehendeu e temeu a justiça divina quando se sentiu varado por uma bala. Eu venho rogar a V. S.^a que comprehenda e tema a justiça divina manifestada na morte violenta de seu creado Manuel Fialho, homicida do innocente João Pacheco. Não lhe direi que se tema da justiça humana, por que o unico homem que podia accusal-o é morto; e eu não o accusarei na terra; porém, se Deus chamar a minha alma a depôr no tribunal divino, direi que de mãos postas e na presença de seus filhinhos, lhe pedi que se curvasse pela contricção e pela penitencia aos pés de Jesus Christo misericordioso.

E ajoelhou aos pés de Alvaro com as creancinhas adiante de si.

—Levante-se, sr. abbade!—balbuciou o marido de Irene, erguendo-o nos braços—Eu sou um miseravel, sou indigno da sua estima… Perdoe-me as injustiças que lhe fiz…

—Não tenho que perdoar… Adeus, anjinhos—disse o padre beijando as creanças—Ide ver-me algumas vezes á residencia, que eu vos ensinarei a orar a Deus por vosso pae e… por vossa mãe.

—A mamã? onde está?—perguntou o menino mais velho que tinha quatro annos.

O abbade passou o canhão da batina pelos olhos, e sahiu.

A voz lamentosa do padre soou no dezerto, as lagrimas cahiram sobre o penhasco esteril.