Alvaro desdava as roscas da serpente do remorso sem grande esforço: era atheu. Bazofiára sempre de racionalista; mas da sua razão era excluido Deus. Acreditava, tal qual vez, nas vantagens sociaes da virtude, e nos perigos do crime; mas para alem da torrente negra da morte não acceitava se quer a discussão absurda.
Apalpava-o agora duramente a desgraça. Havia um homem que podia accusal-o de assassino covarde; tinha uma esposa adultera que passeava ao grande sol das praias e das praças o seu escandalo; rareavam á volta d'elle os cavalheiros considerados; acanalhavam-no os scelerados que se acolhiam ás suas quintas; as authoridades judiciarias, açuladas pela imprensa, aguilhoavam os regedores a assaltarem-lhe as cazas. Perderam-lhe o respeito, e até nos periodicos o amalgamavam com os hospedes, invocando os manes dos condes de Regalados.
Convulsionavam-no phrenesis, exasperos que ninguem mitigava com o amor ou com os linimentos da amisade. Os risos das creanças irritavam-lhe a mysantropia. Era-lhe impossivel a quietação, e baldado o paliativo das deleitações brutaes.
Deliberou viajar. Não podia vender quintas sem o consenso da mulher. Hypothecou-as com enormes uzuras. Embolçou dinheiro á farta para demoradas viagens, e sahiu, entregando os filhos a uma cunhada, esposa do irmão morgado.
Desde 1857 a 1861 triumphou a vida nas principaes cidades da Europa. Conheceu todos os salões e todos os antros. Viu a devassidão no espavento das pompas do Louvre, onde as duquezas apresilhavam diamantes nos bicos dos peitos, e remirou-se nos grandes espelhos dos bordeis em que as mulheres, nuas como as bacantes, se espreguiçavam sobre diwans, com os seios aljofrados de perolas, e os cabellos aromatisados de grinaldas de jasmim. Em Veneza, Milão, Pariz, Londres, Madrid, em todas as cidades capitaes comprava um daumont, dois cavallos, e uma mulher das mais cotadas: ás vezes, comprava duas mulheres e quatro cavallos. Chamavam-lhe conde, por que nos seus trens fizera pintar a corôa dos Abreus, condes do Pico de Regalados.
D. Irene viajava simultaneamente com Jacques Smith. Uma vez, no Prado, em Madrid, o phaetont de Smith perpassou pelo break de Alvaro que boleava. Refestelavam-se nos coxins duas francezas do café-concerto. Jacques acotovellou Irene, e disse-lhe risonho:
—Aos pares, hein? e tu a imaginal-o a semear calondros em Basto…
Irene chorava.
—Por que choras?
—Por meus filhos que não tem pae, nem mãe, e hão de ficar pobres.