—Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!—exclamou ella, pousando no degráo da porta a vazilha e a bassoura.
E o chorar de criança cessou.
A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raizes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde sahiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se á raiz da arvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lh'a apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residencia, e mandou dizer ao abbade que topára no adro uma creança, que parecia estar a despedir.
—Pois que quer ella então?—perguntou o abbade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo á frialdade do ar—Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcellos. Aqui não ha roda de engeitados.
A criada do abbade deu o recado.
—Torne lá, sr.^a Joanna—replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recem-nascido com a barra da sua saia de saragôça—e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do ceo que se perde. O sr. abbade hade saber isto melhor que eu…
A creada repetiu a replica, e ajunctou:
—A tia Bernabé diz bem.—Salte d'ahi p'ra fóra, seu calaceiro!—E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.—Um rapaz de vinte e sete annos está ahi enteiriçado como um velho! Upa!
—Está quieta, Joanna, olha que me fazes vento!
E ella puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de tres pés; e elle, com o outro, despedido á tôa, sacou-lhe do baixo ventre um som tympanico de ôdre cheio.