—Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Balthazar—explanou a devota dos magos orientaes:—o menino póde chamar-se Belchior, se o sr. abbade quizer.
—Eu quero tudo que vossês quizerem. Vamos a isto, que está um frio de rachar—E, recolhendo-se á sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gazes do estomago ainda perfumados do vinho da ceia.
—Meu rico anginho, irá elle morrer na agua fria?—lamentava a boa creatura bafejando-lhe as duas faces.
O abbade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o engeitado ao baptisterio, fez um resumo do latim ceremonial, e disse:
—Vão-se á vida.
—Vou-me d'aqui ás Lagôas a vêr se a Thereza do Eido me dá o peito a este anginho, até vêr se arranjo que algum lavrador me faça esmola de um bocado de leite de cabra—disse a tia Bernabé.
—Então vossê não o leva á roda?—perguntou o abbade esbugalhando o espanto nos olhos.
—Ágora levo eu á roda o meu engeitadinho! Já que Deus me não deu filhos…
—E tem muito que lhe dar vossê?
—Em quanto eu poder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não poder, dá-m'o elle. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguem… O peor é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome… Ai! meu Deus! ha cadellas mais amoraveis que algumas mães…