A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.

—Foste tu?—exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram do pulso. O pai, homem possante de quarenta annos, sacudiu-se a custo das prezas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, e esmurraçou a outra com tamanho impeto de raiva que Maria cahiu atordoada.

Em seguida voltou-se para as duas filhas, e disse:

—Esta mulher fica fechada aqui, entendem vossês? Se quizerem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para ahi, que a levem os diabos!

E, sahindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.

* * * * *

A tecedeira, quando Belchior, lavado em lagrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo ás mãos postas em supplica, relançou os olhos á imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:

—Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me offereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer n'ella. Vende-se a casa, ficas tu sem ella, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.

Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.

Não chores, moço!—insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu n'esta exclamação: