—A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!
—Credo!… tu que dizes, Belchior!?
O rapaz arrepellava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovêllos um contra o outro. Atirava-se de trambulhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava de cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua afflicção. Fazia aquillo porque não sabia as phrases que nós, os máos romancistas, costumamos emprestar a esta especie de sujeitos.
A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o engeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupilla fulva do sr. Izidoro Sabino Ferreira na tragedia, disse com o esbofar das angustias vertiginosas:
—Assim com'ássim… mato-me!
Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado chôro que alvorotou a visinhança.
Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cosinha, saltou vallados, emboscou-se n'uma seara de centeio, e ahi, estirado por terra sobre as louras gabellas, chorou copiosamente.
A tia Bernabé pedia entretanto aos visinhos que fossem atraz d'elle, porque o seu Belchior disséra que se matava.
O engeitado deixou-se trazer como um ebrio nos braços dos visinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando animo—que é sempre certo, esgotadas as lagrimas—contou á tia Bernabé a sua curta historia com a Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que irriçou os cabellos da velha.
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