E, abrindo os Lusiadas, apontada dois versos em que Luiz de Camões vingava Duarte Pacheco da injuriosa ingratidão de D. Manuel:

Isto fazem os reis cuja vontade
Manda mais que a justiça e que a verdade

João Pacheco sorria-se.

A freira azedava com o desdem do sobrinho, e repetia-lhe a ode pyndarica de Antonio Diniz, consagrada a seu avô. Era, porém, quasi ridiculo o enthusiasmo antigo da filha de S. Bento, declamando com teatral gesticulação a farfalhuda estrophe:

Cem paráos torveados
D'onde por bocas mil brota Mavorte
Entre horrorosos brados,
Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte,
Zargunchos, frechas, que em choveiros vôam;
Elephantas bramindo a terra atrôam;
Neptuno da batalha ao som horrendo
No fundo mar se espanta;

Nos eixos muda a terra está tremendo,
Mas nada o grande coração quebranta.

—O que eu collijo d'esses versos—dizia o soda transportada senhora—é que o bravo Duarte Pacheco espatifou muito indio, fez espadanar muito sangue de povos que defendiam o seu lar, e nunca vieram aqui attacar o nosso. Ora, a providencia castigou o Achilles lusitano, baixando o a tragar na barra dos desvalidos a miseria do rei de Calecut, arrojado por elle do throno á indigencia.

Com poucos mais traços, está bosquejado o perfil ideal de João Pacheco.
Completal-o-hão os successos occorrentes n'esta historia.

A sexta pessoa do grupo, que povoava o cinceiral do Vizella, era um dos Saint-Preux portuenses, o modelo acabado da belleza varonil, já passante dos trinta e cinco annos, cançado, mas fingindo que amava sempre porque era deveras querido. Não sei se elle, á imitação do marselhez Luiz Gauffredi, pactuara com o diabo dar-lhe a alma em troca das mulheres que soprasse; o que sei é que as damas que elle quiz, sopradas ou não, amaram-no.[1] Parte d'essas estava nas Caldas a abrir o appetite enfarado ou a diluir os empaches da nutrição rija. As meninas anemicas e chloroticas dos trovistas da cidade, em 1851, pertenciam ainda á embryologia; assim como os bardos, que actualmente lhes receitam boi e vinho do Porto, fermentavam no ventre da Idea… com i grande.

José de Almeida, o Don Juan do Porto, bem que reconhecesse os amavios corporeos da morgada de Athey, chegara á idade em que o espirito, ganhando entojo ás carnalidades, entra a namorar-se da belleza moral. Almeida zombava dos tregeitos, do palavriado, das relamborias denguices de Irene. Quem o attrahia áquelle grupo era João Pacheco; e quem attrahia João Pacheco era o abbade de Santa Eulalia com o engôdo das anecdotas, com a sympathia das bôas tolices, e a prodigiosa arte de exorcisar a tentação do suicidio das pessoas que penam em Vizella quinze dias de junho. José de Almeida me dizia a mim…