IV
Em setembro de 1840 appareceu em Landim Pinto Monteiro e o seu chamado guarda-livros. Acompanhava-os a açoriana, intitulada honorificamente esposa do cego. Era uma mulher desnalgada, sardenta, ruiva, alta e possante, com bretoejas rosaceas na testa, e um caracol de barba no queixo inferior. Galhardeava moírées, calçava botas verdes, e trazia uns merinaques que rugiam como as cavernas dos ventos.
Pinto Monteiro alugou casa em quanto reedificava outra sobre o casebre de seus pais. O guarda-livros dizia com certo resguardo que o patrão era muito rico. Convergiram logo das freguezias circumvisinhas bastantes cavalheiros a visital-o, uns porque haviam sido seus condiscipulos na escola, outros por parentesco não remoto.
O cego banqueteava os seus hospedes com iguarias incognitas apimentadas por cosinheiras negras. Os commensaes, gente saturada de vegetaes e milho, comiam á tripa fôrra, e levavam em si d'aquella mesa lauta raras indigestões, muitas saudades e copia de vinhos. O cego tinha uma irmã dez annos mais nova, que surgiu com bandós, dom e espartílhos d'entre um balão da cunhada. Fallou-se do casamento da moça, dotada pelo irmão com dez contos. Os morgados já corveteavam os seus pôtros por Landim, e de longes terras vinham propostas de casamento, por intermedio de padres e beatas. A rapariga, que eu conheci a encanecer na decadencia dos cincenta annos, devia ter sido uma trigueira sanguinea com as mordentes graças das sobrancelhas travadas, e negras como a pennugem do bigode.
Pinto Monteiro passava temporadas no Porto com Amaro Fayal. Era ali que elle cumpria a mensagem a que fôra enviado pelo chefe da policia fluminense. Viera, sob condições estipuladas, relacionar-se com os exportadores de moeda-falsa, e estatuir, de harmonia com os interessados, bazes organicas e auspiciosas para negocio menos precario. O resultado, previsto pelo cego e applaudido por Fortunato de Brito, era a policia conhecer no imperio brasileiro os cumplices dos agentes que residiam no Porto, e, de uma vez para sempre, abranger em rede varredoira os principaes.
Conseguira captar a confiança dos dois gravadores mais habilidosos e conhecidos alem-mar; mas um d'elles, Coutinho, o ancião que eu vi morrer na enfermaria da Relação em 1861, não delatou as pessoas com quem negociava, posto que o cego lhe garantisse uma velhice abastada nos confortos da honra. O outro artista, que morreu rico, apezar de se ter remido da cadeia á custa de dezenas de contos, tambem não denunciou os seus freguezes; mas convidou o cego a mercar-lhe au rabais uns cincoenta contos, resto da ultima edição.
E o cego comprou-os.
Em 1841, a hospedaria dilecta dos brazileiros de profissão (distingam-se assim dos brazileiros do Brazil) era a do Estanislau na Batalha. Ali havia a sem ceremonia do chinello de liga á meza-redonda; os collarinhos arregaçados deixavam arejar as pescoceiras rorejantes de suor, que se limpavam aos guardanapos; cada qual podia comer o arroz com a faca e o talharim com o garfo; a laranja era descascada á unha, e os caroços das azeitonas podiam ser cuspidos na meza, bem como as esquirolas do pernil do porco desentalladas a palito das luras dos queixaes. E era até de direito commum cada qual caçar de guet-apens a importuna mosca na cara e decapital-a publicamente. Estava-se ali á vontade, como nos jantares de Peleu e Patroclo, com um grande estridor de mastigação e arrôtos.
O cego hospedava-se no Estanislau, e dizia ao secretario:
—Estamos com a nossa gente, Amaro amigo.