A idade, a compostura e o palavriado, com a reputação de rico, deram-lhe na meza o logar mais auctorisado. Os brazileiros, vindos do Rio, conheciam aquella figura; alguns sabiam que o homem se tinha arranjado com expedientes mysteriosos; mas isto mesmo era qualidade meritoria e relevante no commensal. Rosnava-se de moeda-falsa; até alguem teve a ousadia de repetir o boato corrente ao guarda-livros. Amaro Fayal deu aos hombros, sorrindo, e disse:
—A moeda-falsa é commercio como qualquer outro, com vantagens em proporção dos riscos. Negocio execrando só conheço um: é o da escravatura. Ha tambem uns negocios que, depois de muitos annos de estafa, não deixam nada: esses chamam-se negocios tolos. Assevero lhes que a riqueza do sr. Pinto Monteiro não se fez com a escravaria.
Estava lançado o dardo. Esta franqueza deu margem a discussões, nas quaes o cego e o Fayal descobriram entre os contendores os menos escrupulosos. Volvidos alguns dias, Pinto Monteiro tinha vendido os cincoenta contos de notas a um brazileiro da Maya, e era encarregado de agenciar cem contos para outros que o primeiro alliciara. N'esta transação cobrára o cego percentagem, e pedira sociedade no quinto dos interesses, com a clausula de dirigir no imperio a circulação da moeda-papel. Pactuaram a viagem para julho d'aquelle anno. Pinto Monteiro convencionou acompanhal-os, a fim de liquidar o restante dos seus haveres, dar impulso ao negocio e vir depois descançar na patria.
Depois de uma demora de dois mezes, Pinto Monteiro recebeu no Porto a infausta nova de que a açoriana, captiva das negaças de um hespanhol operador da catarata, fugira com elle para a Galliza. Bacorejou-lhe ao cego que estava roubado, e o palpite funesto realisou-se.
A quantia devia ser valiosa, por que o trahido amante suspendeu as obras começadas e desfez contractos apalavrados de compras. Ficou na memoria dos contemporaneos a respeito da perfida, uma palavra do cego, significativa de sua indole:
—Se o hespanhol levasse a mulher e me não levasse o dinheiro, penhorava-me bastante. Como me tirou as cataratas do coração, pagou-se por suas mãos o patife!
A opinião publica de Landim irritou-se quando soube que a fugitiva era simplesmente manceba do cego. A moral exigia que elle fosse marido, para não se desvaliarem os quilates do escandalo.
V
No mez aprasado, Pinto Monteiro regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua irmã D. Anna das Neves. Embarcaram no Porto com elle os amigos e socios grangeados no hotel. O brazileiro da Maya, comprador dos cincoenta contos, levava algumas pipas de vinho verde, e uma d'estas vasilhas havia sido fabricada, conforme o modêlo que dera o cego, e sob a fiscalisação de Amaro Fayal. No reverso das quatro aduelas do bojo pregaram um quadrado de madeira com chanfradura onde invasasse o rebordo de um caixote de flandres; a pregagem do quadrado ficava occulta debaixo de quatro dos arcos de ferro. O caixote continha duzentos contos em notas brazileiras, e era estanhado nas juncturas de modo que o liquido as não penetrasse, atravez de uma grossa capa de chumbo.
Chegados ao Rio, a carregação entrou nos armazens da alfandega, e Pinto Moreira com a sua familia hospedou-se em casa de Fortunato de Brito. Ao apontar o dia seguinte, os passageiros delatados pelo cego eram prezos; a pipa despejada e desfeita; e o caixote das notas conduzido ao tribunal para se lavrar aucto. Os quatro portuguezes morreram no degredo, perdidos os haveres que já tinham adquirido honradamente. Pinto Monteiro recebeu dez contos de réis, os 5% estipulados e deduzidos da preza.