O leitor vai descobrindo que eu não estou escrevendo um romance. Consta me que, no Rio, os homens que já o eram ha trinta annos, recordam estes factos com algumas miudezas que não pude obter nem já agora inventarei. Os meus apontamentos são exactissimos no summario das excentricidades do cego; mas escassos dos pormenores que eu rigorosamente quizera não omittir.

Aqui me contam elles os amores da morena filha de Landim com o chefe da policia. Este episodio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de policia coubessem scenas de amor brazileiro, morbidas e somnolentas, como tão languidamente as derrete o sr. J. d'Alencar. Em paiz de tanto passarinho, tantissimas flores a recenderem cheiros varios, cascatas e lagos, um ceo estrellado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sutaque, com isto, e com uma rêde—ou duas por causa da moral—a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu mettia n'ellas o chefe da policia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um saguí do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rôlas eu não estylava d'esta penna de ferro! Mas eu não sei se me acreditariam coisas tão perigrinas entre o virginal Fortunato, chefe da policia, e ella, a menina Neves que já havia colhido as boninas de vinte e nove primaveras nas florestas do seu Minho, onde a maroteira é pre-historica.

Amores e desventuras de peor natureza nos levam a outro incidente, e ahi veremos que Pinto Monteiro fareja todos os latibulos em que se acoite algum crime, e não consente que a corrupção do seculo XIX ponha pé em ramo verde no novo mundo.

Certa carioca, esposa de um João Tinoco, portuguez, fizera assassinar com veneno o marido por um escravo: mas com tal resguardo que o conjugicidio não escoou dos muros da chacara onde ella impunemente se dava ás delicias de Agrippina. Isto de chamar Agrippina á viuva de João Tinoco é excesso de erudição. Ella não tinha idéa nenhuma de ser posta em parallelo historico com a envenenadora de Claudio; o que ella queria era que a deixassem gostar as alegrias da viuvez de um marido que entrara em casa de seu pae como aguadeiro; e, exaltado a esposo, a quizera forçar a fidelidades incombinaveis com o clima, desenvolvendo de mais a mais um excedente de calorico na esposa com o atricto do murro portuguez de lei.

Tinoco tivera um caixeiro que expulsara quando lhe descobriu capacidade para o adulterio, segundo informações de um marçano que vira piscarem-se reciprocamente os olhos direitos á sinhá e o caixeiro. Eis o fio que conduz o cego até ao thalamo infamado e d'ahi á campa do inulto João Tinoco. O assassinado tinha irmãos abastados no Rio. Pinto Monteiro revela-lhes que seu mano morrera de morte violenta, e, coberto de lagrimas, não podendo mostrar os intestinos dilacerados de Tinoco, como Antonio a tunica de Cesar, põe as mãos convulsas no ventre, e exclama:

—Despedaçaram-lhe as entranhas as agonias do arsenico! etc.

Fez terror.

Rugem vingança os irmãos; o cego dá vulto ás difficuldades das provas judiciarias; franqueiam-lhe dinheiro sem conta, e um grande premio, se a prova se fizer.

Vejam os profundos segredos do ceu! Os crimes obscuros quasi nunca é a lampada da virtude que os descortina; são sempre os cerdos que fossam e tiram á tona dos lamaceiros as podridões submersas.

Pinto Monteiro fez surdir á flôr da terra as podridões de Tinoco, e a toxicologia declarou que o homem morrera envenenado pela massa de Frei Cosme. Não vá o leitor cuidar que entra na novella um frade que manipulava massas homicidas. Não, senhor. A massa de Frei Cosme é uma farinha saturada de arsenico.