O lavrador, já no cairel do abysmo, vendidas as melhores propriedades, quiz reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por medo e por amor. O pusillanime vergava ao prestigio da força. Narcisa offuscava-o com a rutilante belleza do demonio, disfarçado na lendaria Dama Pé de Cabra, e n'outras damas que o leitor conhece com pés chinezes.
Dobados dez annos de vertiginosa dissipação, o lavrador resvalou do idiotismo á sepultura, amando ainda a mulher que vendera um lençol para lhe comprar a ultima gallinha. E Narcisa, viuva aos vinte e oito annos, e ainda formosa, atirou com a honra ás goelas do dragão da miseria, e não chorou uma lagrima.
Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a irmã do cego. Pobre Neves! quem te predisséra o supplicio dos teus derradeiros annos, ligada ao destino da mulher que tu crearas com maternal ternura!…
VII
Entretanto, o padrinho de Narcisa não escarmentava no sestro de casamenteiro; é certo porém que similhantes casos assim funestos, não se repetiram nas suas operações matrimoniaes. Por esse tempo, casou elle a filha com diminuto dote, e abriu a carreira do sacerdocio a um filho, que outras vocações depois afastaram da egreja. Os seus teres, com judiciosa economia, seriam bastantes á decencia aldeã; porém, privar-se da mesa farta e franca, era privar-se de amigos que lhe festejassem as anecdotas. Pinto Monteiro, no dia em que falisse de auditorio, começaria a morrer no abafador silencio da cellula penitenciaria.
Empobrecia rapidamente: mas dava a perceber que a philosophia de Job é a ultima moeda com que o homem decahido compra a resignação e a gloria eterna, par dessus le marché dizia elle.
Amaro Fayal, confidente dos secretos desfalques do patrão, pensou em retirar-se para o Brazil, visto que não tinha secretaria para fiscalisar, nem desprendimento tamanho que acceitasse outra vez o officio de moço de cego.
É aqui o logar de repetir litteralmente uma accusação que todos os meus informadores, sem discrepancia, irrogam ao cego de Landim:
Um lavrador da Lamella, induzido por Pinto Monteiro, vendeu as suas herdades por alguns contos de réis, a fim de ir negociar no Brazil e centuplicar o seu dinheiro. Sahiu Monteiro com destino ao Rio, levando em sua companhia o lavrador. Passados dias, apparece em Landim o cego, fingindo-se doentissimo, e diz que o seu companheiro embarcara, e elle retrocedera forçado pela molestia. Ora, do lavrador nunca mais houve noticia; mas, no governo civil de Lisboa, fôra visado o passaporte de José Pereira da Lamella, e o mesmo nome inscripto na lista dos passageiros. Isto não obstante, o cego era accusado de haver matado em Lisboa o lavrador, não podendo roubal-o por maneira mais suave; e a certeza confirmou-se quando parentes que o Lamella tinha no Rio, perguntados a tal respeito, responderam que nunca viram tal homem, nem, depois de chamado pela imprensa de todas as provincias, apparecera. Asseveravam, porém, que um nome similhante se lia na lista dos passageiros desembarcados no Rio, no mesmo navio e mez em que de Portugal se informava que elle partira.
Seria mais natural suppor que José Pereira morrera obscuramente em alguma rossa; mas á calumnia pareceu mais romantico decidir que o cego o matára.