—Como presumem os senhores que o cego matasse o lavrador?—perguntei.
—Não sabemos; mas o mais provavel é que o atirasse ao rio quando o bote ia para bordo da galera.
Esta era e é a opinião corrente. Pelos modos, o cego, em pleno sol do Tejo, na presença dos barqueiros, alijou o passageiro ao rio, e fez remar para terra o bote com a bagagem do morto; depois, saltou no Caes das Columnas com a mala do dinheiro debaixo do braço, e ás apalpadellas lá se foi pacificamente caminho de Landim.
Corre parelhas em maldade e estupidez esta aleivosia, é certo; mas o lavrador, de feito, fôra assassinado em Lisboa.
Agora, posto que tardia, ahi vem a rehabilitação de Antonio José Pinto
Monteiro.
Quem induzira o lavrador da Lamella a vender as terras foi Amaro Fayal, offerecendo-lhe sociedade em negocio que rendia 200%. O Pereira da Lamella era calaceiro. O trabalho agricola pezava-lhe: as suas terras, avaliadas em cinco contos, rendiam escassamente o passadio grosseiro do lavrador minhoto. Calculou, firmado na prova mathematica das cifras de Amaro, que, ao fim de cinco annos, devia ter cinco contos dez vezes multiplicados. É claro: 200%—5 vezes 10—50 contos. Vendeu as terras e partiu com o ex-secretario do cego. Pinto Monteiro, sinceramente affeiçoado ao seu confidente de vinte annos de varia fortuna, acompanhou-o até ao Porto, e d'ali voltou para Landim algum tanto enfermo, e ás pessoas que lhe perguntavam pelo Pereira da Lamella respondia naturalmente que tinha embarcado. Dava-lhe, porém, que scismar não estar o nome de Amaro Fayal na lista dos passageiros.
O leitor já descobriu que o assassino do lavrador foi Amaro; que o passaporte do morto serviu para o matador; mas ignora os pormenores do crime, e eu tambem os não sei.
Passados annos, um correspondente de gazeta escrevera o essensial da calumnia que assacava o homicidio ao cego. O delegado de Villa Nova de Famalicão, Soares d'Azevedo, e advogado de Pinto Monteiro em diversas demandas, aconselhou-o que justificasse a sua innocencia n'este crime que lhe imputavam, porque deixal-o á calumnia e á revelia era arriscar-se a perder todos os seus pleitos. O cego, com a lucida intuição de quem tinha longa pratica de crimes tenebrosos, explicou a morte do lavrador, comprovando-a pelas circumstancias do passaporte, pela omissão do nome do homicida na lista dos desembarcados no Rio, e pela certeza que lhe deram de Amaro Fayal ter morrido poucos dias depois que chegára, no hospital, com o roubo ainda intacto, segundo vira na noticia dos espolios dos fallecidos. Replicou-lhe o delegado que semelhante justificação era insufficiente: o cego redarguiu que não tinha outra, nem essa mesma daria, se Amaro Fayal fosse vivo, por que no seu braço se amparara vinte annos, vinte annos vira pelos olhos d'elle, e mal remunerado o despedira, sem que o seu guarda-livros murmurasse da mesquinhez da paga.
VIII
Em 1858 o cego, escasso de posses, escorregava na ladeira da pobreza. Havia vendido ou hypothecado as terras. Perdera demandas valiosas: parece que em quasi todas influiu a sua má nota a desculpar a injustiça. Duas quintas lhe foram extorquidas com tão estranho desafôro, que é mister acceitar-se intervenção de jurisprudencia divina para que o homem as perdesse, pois é de crêr que as adquirisse com dinheiro deshonrado. Dizia elle que viera encontrar em Portugal especies de ladrões fleugmaticos e frios, que não topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analphabeto e lerdo, ao passo que o ladrão, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado. Alludia a dois adversarios jurisconsultos que eu escondo á curiosidade do leitor, por que me sustém o pulso um quasi religioso respeito á memoria honesta de Paiva e Pona, e tambem de Pêgas.