I

Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo.
Estava em scena Santo Antonio, o thaumaturgo. A commoção era geral.
Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvarães,
choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.

Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.

Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,—bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:

Mimosa nasce a flor e vive ainda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vicio não trabalha p'ra perder
.

Et coetera, com a mesma uncção e musica.

A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas, e disse com atticismo velhaco:

—Versalhada…

Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.

Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.