Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos, paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a realisação d'este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados que tinha colhido.
Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna, dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.
Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de que até uma criança de 8 annos poderia zombar.
Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais adiantados, que no primeiro dia.
Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou spleen, como lhe chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.
Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo?
É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr.
Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça, fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina, pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e virtudes.
Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto, agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um pequeno episodio d'esta muito veridica historia.
De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto, na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe, pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha, que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se e adormeceu, embalado por sonhos felizes.