No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d'estes cavalheiros d'industria, a qual consiste em entrar, sob qualquer pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do cavalheiro d'industria se reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua primeira escamoteação.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia, e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça, Roberto, por que o cavalheiro d'industria era elle, encarou com seu tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina, que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

--Tu sahes já, já do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgazã--que vida socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz soturna.--Não quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai, mas a todas ellas não obteve outra resposta, senão a completa prohibição de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador, que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque, impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto, tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.