Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um açafate em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:

--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era só voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim, paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos com uma expressão de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a face.

N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.

D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha expendido antes de começar.

--Ah!--lhe disse eu com admiração sincera--v. exc.ª podia facilmente escrever um romance.

--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como producção da minha imaginação e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa discussão.