O extraordinario da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas e os actos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro e á parentella alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse, em concordancia com a faculdade medica de Coimbra, que mandára a ares patrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver morbido, asthenico, e analogo ao do ethico; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse sentar.
Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a vigessima nona Mafalda n’aquella familia de Pinhel. Entrando n’este numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Affonso II, que tambem era da familia, pelos modos, e sem duvida nenhuma.
Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta d’este escripto; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se lisongeava do seu amor.
A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o fidalgo, era um desertor de cavallaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava a seguro.
As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse á luz a sua segunda ignominia.
Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria Casimiro Bettencourt.
N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar como creado o desertor, visto que a plebe academica se bandeara contra os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava côres, e olvidara Christina.
Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavallariço, incapaz de fazer mal a folego vivo.
Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a mão. O opprobio do fidalgo era ainda materia de ociosos, revivido com a sua presença.
Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: cousa não facil na multidão de mil e tantos moços, entre os quaes raro se via o solitario de Santo Antonio dos Olivaes.