—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.
—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as não disseram...
—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das duas uma: ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus.
Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos participaram.
Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina.
Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este periodo:
«É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.»
Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade»; bem como: «tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.» As primeiras palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu.
Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse ao portador:
—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. Casimiro.