Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.
Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o arroteamento e a cultura.
A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos pobres o desmontar da terra deixada a monte.
As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da Castra, semelhava uma mouta de arbustos.
Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo convidativo cantar do gallo.
Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa, e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV.
Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de outras muitas.
Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia.
Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a vida por um fio.