Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia, nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo necessario ao ensino de Ladislau.

Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos, muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados.

Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau.

Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação, silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros com glacial taciturnidade.

Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro. Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu, a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria, modelado por este extraordinario succedimento!

Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza!

As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos serafins.

Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço de dezoito annos, sem uma só primavera:

—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram, no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?

—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».