Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.
Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:
—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.
—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a besta-féra.
—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar tempo.
Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.
Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.
A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano e pasmava da demora.
Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da Couraça dos Apostolos, onde morava Casimiro, e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas horas da manhã.