Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas palavras do tio moribundo, que tinham sido estas:

—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não, meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido, ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram, cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto, filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense mais um dia de existencia.

Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero.

Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo.

Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais abastados da freguezia.

—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes?

—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario.

—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia destinado á minha decisão.

O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes.

Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a campa dos sacerdotes seus antepassados.