D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.
O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.
Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:
—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz á perna a sociedade da Manta. Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v. ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.
—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis...
—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim...
O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.
No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietaes.
D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto, arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro: «a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!»