D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, erguer, sendo preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão.

D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe sempre:

—Cuidado com a outra.

—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.

—A outra orelha, patife!

O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.

D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os influentes do jury.

N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D. Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado, disse:

—Primeira admoestação!

E andou.