—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.
—Recebo as ordens de v. ex.ª
—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas. Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella está morta por fazer as pazes commigo.
—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.
—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?
—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.
—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo!
O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:
—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!
—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas.