Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando viu que a sua aia se preparava. Entraram ambas na caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de noute a Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.

Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:

—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua vida.

—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.

—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!

As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato Antonio, onde Vasco de Nellas cavalgou, adiantando-se.

A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou a carroça diante de um palacete velho, em Recaldim, no termo de Torres Novas. Era ali uma grossa commenda de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada pelos Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação de Affonso VI, se affastaram da côrte.

Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o deixaram seus avós, quando voltaram a Lisboa.

A tranzida menina sentiu frio e medo.

Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de côr inqualificavel, uma creatura, ao que parecia, femeal. Dirieis que uma cuvilheira dos Lucenas, adormecida em 1680, ao sahirem seus amos, acordára como Epimenides, cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira ao salão para vêr qual das fidalguinhas Pains estava a soluçar.