Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no adro dos seus mortos, disseram:
«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».
Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos cerros das montanhas.
Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:
—Como isto é triste e feio!
Padre João olhou em redor de si, e respondeu:
—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.
E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho murmurando:
—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.