Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.
A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, laboriosa, e muito dada á oração.
Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote e d’ella.
Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João e de sua irmã.
N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio. Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e coração.
Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!
Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na audição interior do espirito.
Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.
Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse: