—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.
Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.
Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.
Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma vela do outro lado.
Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar outro da tocheira.
Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.
Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a vel-a?»
Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia sahindo:
—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.
—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.