—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado está aberta.

Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.

Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.

Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!

Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:

—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.

E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.

—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?

A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro uso.

Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.